Quando uma mulher jovem decide emigrar

Quando emigrei, de Portugal para a Bulgária em 2011, tinha 21 anos, uma licenciatura concluída e poucas expetativas quanto ao futuro. Podia dizer que foi a crise financeira de 2008 que me levou a sair do país, mas estaria a mentir.

Porquê sair?

O desemprego foi apenas um dos motivos que me levou a partir, pois são vários os fatores que nos levam em busca de novas oportunidades de vida para outros lugares. No meu caso, considerando-me uma viajante, concordo com este texto escrito por Agustina Bessa-Luís no seu livro ”As Estações da Vida”:

Ficaríamos surpreendidos, ao verificar que 80% ou mais dos viajantes não têm qualquer motivo para o fazer, pelo menos qualquer motivo profundo. Não é a fome que os impele a tomar um comboio ou um avião; é mais, e acima de tudo, um desconforto psíquico.”

AGUSTINA BESSA-LUÍS NO SEU LIVRO ”AS ESTAÇÕES DA VIDA”

Antes de sair de Portugal e já decidida a emigrar para a Bulgária, foram várias as questões que me colocaram:

  • ➩ Porquê sair?
  • ➩ Porquê trabalhar na Bulgária?
  • ➩ Porquê para tão longe?
  • Porque é que vais sozinha?

Lembro-me de ter sempre respondido a cada uma destas perguntas de forma elaborada e razoável. Se fosse hoje, responderia apenas “E porque não?” Apesar de todas estas questões serem convenientes, nem todas as pessoas o são, e por isso nem todos merecem uma justificação detalhada do que a nossa alma exige e procura viver.

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Com a idade também aprendemos isso. No meu caso tive o apoio da família e dos amigos nesta tomada de decisão, acredito que essencialmente por duas razões:

  • ➩ Uma, o facto de me terem sempre ouvido dizer que “um dia queria ir viver para o estrangeiro” .
  • ➩ E a outra por estarmos numa enorme e reconhecida crise económica que não ia, e não melhorou tão cedo.

No fundo lá no fundo, o que a minha alma queria era o que a Agustina Bessa-Luís escreve sobre o que os viajantes procuram: “uma excitação sensorial que o mundo familiar ou vizinho não pode oferecer.”


Uma mulher em busca de uma nova vida

De um modo geral, a ideia de um homem partir em busca de uma nova vida e à descoberta é mais facilmente aceite do que se for uma mulher. Afinal, o homem, historicamente, sempre teve carta verde para explorar (quase) tudo o que quisesse e a mulher era aquela que tinha de pedir autorização ou casar-se ou ser rica, e mesmo assim ter a sua liberdade de ação condicionada ou recusada. É uma sorte eu viver no presente século e num país como Portugal, de onde pude sair livremente, sozinha e sem ter que pedir autorização.

Viajei para Sófia, a capital da Bulgária…

No mês de Novembro, quando saí do aeroporto as minhas mãos congelaram, já havia neve. A Bulgária ainda é um dos países que passa vividamente pelas quatro estações do ano, saudades de um Outono e de uma Primavera…. estou a ficar nostálgica.

Mas adiante, como qualquer estrangeiro a viver num país novo, as primeiras semanas são passadas a sair muitas vezes, a absorver diferenças culturais e álcool, a conhecer várias pessoas e a responder a muitos inquéritos. De repente, as pessoas querem saber quem nós somos, de onde é que vimos, onde é que trabalhamos; um estrangeiro recém-chegado é uma espécie de celebridade.

⫸ No início explicamos os motivos da nossa decisão e como fomos parar àquele país, toda uma versão, que às vezes gera ainda mais questões. À medida que o tempo vai passando, a nossa explicação vai ficando mais reduzida, até a resposta mais curta e mais fácil se tornar “Crise económica” – xeque-mate. ⫷

Ninguém questiona outra pessoa por deixar o seu país em busca de melhores condições financeiras, contrariamente a quem saia em busca de melhores condições emocionais e mentais, que é por norma considerado mais uma fuga do que uma descoberta. Às vezes até nós mesmos chegamos a acreditar nisso, mas há uma diferença entre fugir e procurar por melhor.  Ainda assim a resposta “Porque não” continua a ser a minha favorita.


Mas sozinha?

Nos primeiros dias de trabalho um colega perguntou-me se eu era casada, era a primeira vez que alguém me perguntava isto. Até aí era vista sempre mais como uma miúda, também pela minha aparência, pois davam-me sempre dois ou três anos a menos, e agora de repente, alguém achava que eu podia ser casada.

Ri-me, respondi que não e perguntei:

  • ➩ Porquê?
  • ➩ Porque me tinha mudado para a Bulgária para trabalhar.

A verdade é que ali as pessoas não viam a minha idade, viram o que eu ainda não tinha visto, uma jovem adulta emigrante. E foi realmente ali que eu aprendi, cresci e amadureci. Independentemente de me deparar com perguntas tais como “Mas sozinha?”

⫸ Mesmo quando vinha de férias a Portugal algumas pessoas me perguntavam “Mas estás lá sozinha?” Ao que eu respondia “Não, tenho colegas de casa.” O que obriga as pessoas a perguntarem em detalhe “Está bem, mas sem um namorado ou marido”. ⫷

Sei que qualquer pessoa que emigre sozinha enfrenta este tipo de questões, incluíndo os homens, pois no geral, parece que a sociedade ainda tem problemas em ver as pessoas “solteiras”, que identificam como “sozinhas”, esquecendo-se que os dois conceitos não estão diretamente relacionados

Ou tem um bom salário ou tem um companheiro/a

Outra questão que geralmente também desperta a curiosidade da nossa sociedade é o fator financeiro. Algumas pessoas, principalmente do país de origem, perguntam aos emigrantes qual o tipo de trabalho que fazem, o que em alguns casos é difícil responder devido às novas profissões que hoje existem, (já nem todos os portugueses emigram para fazer limpezas e trabalhar na construção civil) e qual é o salário.

Sei que há muitas pessoas acham que esta última pergunta é normal, mas eu não sou uma dessas pessoas. Ou seja, o emigrante deve corresponder pelo menos a uma destas categorias, ou tem um companheiro/a ou tem um bom salário. Se não corresponder a nenhuma destas opções o emigrante é… não sei, para mim é perfeitamente normal. Estas perguntas surgem principalmente quando se emigra para países menos desenvolvidos que os de origem, como por exemplo a Bulgária.


Regressar a Portugal quase 4 anos depois

Quando chegou a altura de regressar a Portugal e me demiti do meu emprego, algumas  pessoas com quem trabalhava perguntaram-me sobre o motivo de regresso:

  • ➩ Um homem perguntou-me se eu ía casar;
  • ➩ Outro homem perguntou-me se tinha engravidado;
  • ➩ Uma mulher questionou-me se tinha recebido uma melhor proposta de emprego.

Quando foi a hora de mudar de país novamente, quase quatro anos depois, as mesmas questões surgiram, exceto a desta mulher. Vários anos passaram, eu continuo solteira e pobre, mas bem. Felicidade e bem-estar é uma daquelas questões que raramente nos colocam, e que, poucas vezes me fizeram no percurso desta minha vida de descoberta e auto-exploração.

A liberdade de viver a minha vida do meu jeito, é um direito do qual gosto de usufruir. 

Alexandra Rodrigues, quando uma mulher jovem decide emigrar

Portanto, vivo num país livre do qual posso sair e emigrar sem pedir autorização (dentro da burocracia e da legalidade), não necessitando de ser rica nem de estar casada, mas no percurso da minha jornada, sou ocasionalmente questionada sobre o meu estatuto financeiro e o meu estado civil.

Continuarei a responder a todo o tipo de questões sem qualquer problema, porque a liberdade de viver a minha vida do meu jeito, é um direito do qual gosto de usufruir

Autor: Alexandra Rodrigues

(Portugal, 1990) Gosto dos livros, da música e da natureza, paz e harmonia. Num percurso de descoberta e auto-exploração.

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