Reescrever a história com Maria Adelaide

Quem foi Maria Adelaide? Começo por contar esta história com uma descrição dos factos e só depois, uma reflexão sobre o “escândalo” que tornou o caso de Maria Adelaide famoso em Portugal, assim como também, a forma como as mulheres foram e ainda são muitas vezes vistas e descritas.

Reescrever a história com Maria Adelaide

Quem foi Maria Adelaide? Alguns dados históricos

Tudo começa em 1918, quando Maria Adelaide Coelho da Cunha (1869-1954), uma mulher de 48 anos da alta sociedade lisboeta, decide sair de casa sem avisar o marido e o filho de 26 anos, para ir viver com outro homem por quem se apaixonou. Tendo desaparecido de um dia para o outro, o Jornal de Notícias, antes liderado pelo seu pai, Eduardo Coelho, e que na época era dirigido pelo marido, Alfredo da Cunha, coloca o seguinte anúncio no jornal:

Desapareceu uma senhora de mais de 40 anos, de estatura não alta. Usava vestido castanho­‑escuro, casaco preto, de abafo, romeira e peles, canotier de veludo preto, sem enfeites, e sapatos de verniz abotinados.” Passados poucos dias, a família recebe uma carta de Maria Adelaide informando “Estou viva mas em condições que me considero morta para todos os efeitos e como tal preferível é que me considerem assim.”

É no seguimento deste bilhete, que se descobre, que a mulher que outrora organizava festas em casa declamando poemas e convivendo com os demais da alta sociedade, “fugiu” para ir viver com Manuel Cardoso Claro, o seu antigo motorista de 25 anos. É a partir deste momento que Maria Adelaide passa a ser considerada “louca” pelo marido e outros conhecidos seus. Alfredo da Cunha, revoltado com a situação, descobre o local onde está a esposa, e encontra-a no espaço de dez dias. Ignora o seu pedido de divórcio e obriga-a ao internamento num hospital psiquiátrico.

Passado algum tempo, Maria Adelaide consegue fugir do Hospital com a ajuda de Manuel Claro, que num gesto romântico constrói uma escada para a resgatar do Hospital e fogem juntos. Mais uma vez são encontrados pouco tempo depois por Alfredo da Cunha, ela é readmitida no Hospital psquiátrico e ele, preso e acusado de rapto e violação. Maria Adelaide encontra-se novamente no hospício, contra a sua vontade, sabendo que Manuel Claro está preso injustamente e que os seus familiares mais próximos, o filho e a irmã, apoiam mais uma vez, a decisão do marido.

Estamos no ano 1919, quando, a pedido da família, é convocada uma junta médica para declarar Maria Adelaide oficialmente louca. Para o efeito, são chamados três médicos bem conceituados: Júlio de Matos, Egas Moniz e Sobral Cid, os três especialistas redigem o relatório médico, diagnosticando a paciente com “loucura lúcida” , justificando o parecer com base no seu histórico de doenças e alterações hormonais associadas à menopausa, que teriam  provocado o seu comportamento imoral e impróprio. Ao ser oficialmente considerada “louca” Maria Adelaide fica judicialmente incapaz de tomar decisões, incluindo a decisão de não vender o Jornal de Notícias. A venda do Jornal, há muito ambicionada por Alfredo da Cunha, e com a qual Maria Adelaide não concordava, podia finalmente concretizar-se, e concretizou-se, sem o consentimento desta.

Ainda da prisão, Manuel Claro não desiste de tentar ajudar Maria Adelaide, e contrata-lhe um advogado para a ajudar na resolução do caso. O advogado reconhece a ilegalidade do processo e consegue a libertação definitiva de Maria Adelaide, que encontra abrigo numa família da alta burguesia no Porto. Manuel Claro só é libertado da prisão em 1922, ano em que vai viver com a sua amada, permanecendo juntos até à morte.


Por que devemos falar sobre Maria Adelaide?

Só pela descrição dos factos, nos apercebemos do pouco poder de decisão que a mulher tinha na sociedade no início do seculo XX. Enquanto Alfredo da Cunha tinha um emprego e exercia outras atividades, pois também era poeta e ensaísta, Maria Adelaide dedicava-se ao teatro e à poesia, mas no contexto doméstico. Podemos talvez dizer, que de certa forma, Maria Adelaide encontrou uma forma de expressão e de se sentir útil através da oferta de entretenimento em sua casa. As atividades culturais que servem não só para nos entreter, mas também, para nos fazer pensar e refletir, era vista na pessoa da Maria Adelaide como um passatempo de senhora rica. Fosse Maria Adelaide um homem, e teria sido provavelmente considerada um artista e não uma dona de casa entretida. Fosse ela um homem, eu não estaria aqui a escrever sobre ela, nem teria sido uma “história dramática”, teria sido apenas a “vida de um homem”.

Acho interessante o facto dos médicos conceituados desta história terem considerado Maria Adelaide “louca” baseando-se em argumentos que a descreviam como demasiado “emocional” e até “dramática”, conceitos aliás que ainda hoje (por defeito dos tempos passados) se aplicam muito às mulheres com uma conotação negativa. Acho isto especialmente interessante pelo facto do drama desta história não ter tido origem na atitude de Maria Adelaide, mas sim na ação levada a cabo pelo marido. Se Alfredo da Cunha tivesse respeitado a decisão da mulher (como esta lhe pediu encarecidamente), não teria havido qualquer drama. Teria sido apenas a história de uma “mulher que se apaixonou por outro homem” e ponto final.

O verdadeiro drama borbulhava no espírito de Alredo da Cunha que não tinha capacidade emocional para lidar com o facto da mulher o deixar por outro, sendo esse outro, mais novo e de uma classe social inferior. Este homem tinha agora que lidar interiormente com este abandono, e exteriormente, com as opiniões da sociedade. Não tendo mecanismos para lidar com o drama que sentia, projetou-o na mulher. Se ele não podia enlouquecer, seria ela a louca. Beneficiando de um estatuto social poderoso, conseguiu rapidamente transferir o rótulo de “loucura” para a mulher e preservar assim a sua reputação.

Eu pergunto…

  • Quantas vezes foram as esposas erradamente rotuladas de loucas, para se preservar as reputações dos maridos?
  • E qantas vezes as esposas consentiram com este rótulo?
  • Quantas vezes os homens machistas e chauvinistas beneficiaram de um sistema que castigou as mulheres por tentarem seguir os mesmos princípios que eles?
  • E quantas vezes isto ainda acontece?

Ainda é comum a mulher assumir a “liderança emocional” de uma relação, pelo facto do companheiro não ter capacidade de gerir as suas emoções; e quantas são as mulheres que acumulam fardos, problemas, doenças, por não poderem partilhar tudo com quem amam?

Durante muitos séculos a mulher pertenceu a um só sítio, esse sítio era a família (ou com os pais, ou com o marido, ou com os filhos) nunca inteiramente independente do homem. E quando a mulher, finalmente, parte em busca da sua felicidade (seja a Maria Adelaide que vai viver com o homem pelo qual se apaixonou, seja a mulher que emigra para o estrangeiro, seja a mulher que viaja pelo mundo sozinha), é por vezes, ainda vista, como a pessoa que abandona, ou a pessoa que foge, contrariamente ao homem que “parte à descoberta”. 

Penso que há ainda uma grande reflexão a fazer sobre o papel da mulher na sociedade, e essa é uma reflexão a ser feita por todos os indivíduos. Cada vez que aprendo mais sobre a construção do papel da mulher, cada vez que desconstruo um mito, aprendo mais sobre mim mesma. Penso que cabe a nós, reescrever histórias da perspetiva da mulher, e não apenas como filhas, mães, esposas, mas fora desta esfera, como indivíduos que partilham um mesmo planeta. Acho assustador o facto de grandes nomes da nossa História nunca terem considerado a mulher como um ser igual, em alguns casos até, tentando descrever a sua “inferioridade”.

 “Há um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem, e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher.” Pitágoras

A fêmea é fêmea em virtude de certa carência de qualidades. Devemos considerar o carácter das mulheres como sofrendo de certa deficiência natural.” Aristóteles

O quão incompleta será a nossa História antiga (e não tão antiga) que raramente, refere o papel das mulheres no curso dos eventos importantes? Será que as mulheres descritas pelos homens do nosso passado eram mesmo como nós as lemos? Muitas foram provavelmente descritas de forma a conservar a imagem das mulheres do modo que os homens queriam, para assim continuarem a usufruir das mesmas vantagens na sociedade. 

Que tipo de problemas projetaram alguns homens em algumas das mulheres descritas do passado – as loucas, as bruxas, que sabedoria esconderiam elas para serem tão mal denominadas? E onde estão as histórias contadas por elas? O processo judicial de Maria Adelaide foi igualmente importante para libertar outras mulheres da época, que se encontravam internadas pelo mesmo motivo – erroneamente consideradas loucas.

Maria Adelaide teve a oportunidade de reescrever a sua história e de contar a sua versão a Portugal quando publicou um livro sobre o assunto, intitulado “Doida não!” Sorte a dela que por pertencer a uma classe alta, tinha tido uma boa educação e por isso aprendera a escrever. Muitas mulheres do passado não tiveram essa regalia, e mesmo as que sabiam ler e escrever, não eram dignas dessa profissão, (profissões consideradas prestigiosas só podiam ser atribuidas aos homens) e por isso, mesmo que as mulheres escrevessem, não seriam publicadas. Teriamos que investigar as gavetas das nossas antepassadas para encontrar mais respostas, para o nosso presente, para a nosso futuro, para a nossa História.  

Termino esta reflexão com uma frase de Virginia Woolf, que penso resumir bem o papel das mulheres numa sociedade, não tão distante da nossa.  

As mulheres, durante séculos, serviram de espelho aos homens por possuírem o poder mágico e delicioso de refletirem uma imagem do homem duas vezes maior que o natural” Virginia Woolf


Bibliografia

Sobre o assunto

Livros sobre Maria Adelaide

Filme

“Ordem Moral”, do diretor Mário Barroso, (2020)

Alexandra Rodrigues

Gosto dos livros, da música e da natureza, paz e harmonia.

Num percurso de descoberta e auto-exploração.

E escrevo artigos em Sen Enderezo.



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1 Comments on “Reescrever a história com Maria Adelaide”

  1. Gostei, está muito interessante com uma boa reflexão no final.

    E dou ideia para um futuro artigo sobre as fortunas que eram deixadas às mulheres em Portugal pela família ou o marido para mais tarde serem “roubadas” por outros usando métodos semelhantes.

    Nice, venha o próximo.

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