Paula Rego – Retratos de Mulheres com Histórias

Artigo de Alexandra Rodrigues

Gosto dos livros, da música e da natureza, paz e harmonia. Num percurso de descoberta e auto-exploração. E escrevo artigos em Sen Enderezo.

Paula Rego é uma artista plástica portuguesa reconhecida inernacionalmente pelas suas obras de arte exuberantes, cativantes e por vezes, inquietantes. Paula Rego nasceu no dia 26 de janeiro de 1935 em Lisboa mas cresceu entre Portugal e o Reino Unido.


Paula Rego – Retratos de Mulheres com Histórias

  • Entre 1952 e 1956, Paula Rego estudou na Slade School of Fine Art em Londres, onde conheceu o também pintor, Victor Willing, com o qual mais tarde se casou e teve três filhos.
  • Paula Rego regressou a Portugal em 1957 permanecendo na Ericeira até 1963 e continuou a transitar de residência entre os dois países até se mudar definitivamente para Londres em 1976.
  • Mais tarde em 1988, o marido Victor Willing morre de esclerose múltipla, e no mesmo ano Paula Rego realiza a sua primeira grande exposição individual na Serpentine Gallery em Londres.

A artista continua a ser convidada para expôr os seus trabalhos em exibições pelo Reino Unido e por todo o Mundo, ganhando cada vez maior notoriedade. Segue-se a atribuição de títulos e prémios, que continuam até aos dias de hoje, os mais recentes atribuídos no ano 2019: o Prémio Carreira pela revista “Harper’s Bazaar e a medalha de Mérito Cultural do Governo Português.

Das várias distinções e prémios atribuídos a Paula Rego ao longo dos anos, destaco a abertura da Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, Portugal, no ano 2009, um museu projetado pelo arquiteto Eduardo Souto de Moura, dedicado à obra de Paula Rego e de Victor Wiling.

Museu Casa das Histórias Paula Rego

A obra de Paula Rego é muito vasta e por isso optei por selecionar três obras que podem ser consideradas feministas e que chamaram a minha atenção:

  • “Branca de Neve engole a maçã envenenada”, (1995) pela transformação de um mundo fantasioso para um mundo desconcertante;
  • “O Anjo”, (1998) por retratar uma personagem de uma das obras-primas da literatura portuguesa – O Crime do Padre Amaro;
  • “Sem título”, (1998) um conjunto de dez quadros que retratam o aborto, produzidos com o objetivo de alertar a população portuguesa para a realidade do aborto clandestino, antes deste ser legalizado em Portugal.

En Sen Enderezo hablamos del feminismo de Portugal y cómo se organizaron las primeras asociaciones feministas con acento portugués.

  • El artículo está escrito en español.

“Branca de Neve engole a maçã envenenada”, (1995)

Este quadro faz parte de uma coleção de pinturas que Paula Rego criou para a exibição «Spellbound: Art and Film» realizada na Hayward Gallery, em Londres destinada a celebrar o centenário do cinema, tendo escolhido o tema da Disney para o efeito. Dos vários protagonistas retratados nesta coleção, a pintura da Branca de Neve é uma das mais marcantes.

“Branca de Neve engole a maçã envenenada”, (1995)

Nesta coleção, as personagens desenhadas por Paula Rego contrastam com a versão da Disney, apresentando-nos uma distorção do mundo fantasioso, que em vez de criar princesas jovens e bonitas, cria mulheres robustas, de diferentes idades e contextos sociais. A Branca de Neve de Paula Rego não é uma jovem princesa que inocentemente aceita a maçã, mas sim, uma mulher de meia idade afligida com a maçã já dentro da garganta, enquanto agoniza de dores contorcendo as pernas, ao mesmo tempo que tenta puxar a saia para baixo.

Uma das interpretações desta Branca De Neve incongruente e estranha é a de que contrareia as expetativas da sociedade pela sua postura e aparência física. O desenho deste tipo de mulher não é uma exceção, mas sim uma norma nas obras de Paula Rego que opta por pintar figuras femininas fisicamente fortes, como se tivesem a robustez física de um homem.

“O Anjo”, (1998)

Esta pintura que retrata a personagem da Amélia, faz parte de uma coleção de seis quadros que Paula Rego desenhou, inspirada no romance de Eça de Queirós “O Crime do Padre Amaro” (1876), para a realização de uma exposição na Dulwich Picture Gallery.

Esta obra literária trata a paixão entre Amélia e Amaro, ela é uma jovem que está noiva, e ele um padre sem vocação mas que foi forçado a entrar no sacerdócio.

Nasce assim subtilmente uma paixão proibída entre os dois que termina numa gravidez indesejada.

A incoveniência deste evento leva a retirada de Amélia para um sítio afastado para ter o bebé em segredo, mas acabam por morrer os dois no parto.

“O Anjo”, (1998)

Mais uma vez a figura desenhada contrareia a expetativa, a Amélia deste quadro pode ser facilmente confundida com um homem pela sua aparência rude e forte, talvez estas características físicas geralmente associadas ao homem, tenham sido incorporadas para mostrar a força da mulher. Em vez de pintar uma mulher frágil e delicada, Paula Rego, pinta mulheres destemidas e convictas que desafiam as convenções da sociedade.

Esta Amélia contrasta com a personagem do livro, na medida em que reaparece autónoma e com voto de decisão, trazendo consigo uma esponja e uma espada. Estes dois símbolos da paixão de cristo revelam uma Amélia capaz de exercer o livre-arbítrio.

“Ela é, ao mesmo tempo, um anjo da guarda e um anjo vingador. A sua missão é proteger e vingar. Traz os símbolos da Paixão, a espada e a esponja. Ela apareceu, ganhou forma e não sabemos o que se lhe seguirá».

Paula Rego

Talvez se Amélia tivesse tido uma segunda oportunidade, numa realidade paralela àquela que se vivia no século XIX, ela escolhesse um fim diferente. Não tendo voz no livro, Paula Rego trá-la à tela dando-lhe alma e coração, num só quadro para narrar uma nova história. Como diz a própria autora, nem ela sabe o que Amélia decidirá, mas talvez este seja o propósito desta nova narrativa – a Amélia com poder de escolha.

¿Quién fue Maria Adelaide? Conoce la historia de esta increíble mujer.

  • Este artículo también fue escrito por Alexandra Rodrigues.

Qual seria o destino de Amélia se tivesse vivido no século XX?

Se Amélia tivesse vivido no século XX e optasse pelo aborto, ainda não o poderia ter feito de forma segura, porque como podemos ver no ponto seguinte, o aborto só foi legalizado em Portugal no século XXI. A Amélia de Eça de Queirós estava a 131 anos da possibilidade de realizar um aborto seguro e legal; e a umas quantas décadas de ser socialmente aceite como mãe solteira, caso optasse por criar o filho sozinha.

“Sem título”, (1998)

Estas duas pinturas fazem parte de uma coleção de dez quadros intitulada “Sem título” realizada por Paula Rego no ano de 1998. Esta produção artística que retrata o aborto clandestino, foi incentivada pelos resultados inconclusivos do primeiro referendo realizado em Portugal para a despenalização do aborto, tendo sido legalizado só em 2007 após a realização de um segundo referendo.

Paula Rego produz então uma coleção única sobre o aborto ilegal, com o intuito de alertar para uma realidade conhecida – o facto do aborto continuar acontecer, independentemente da lei.

Sem título, 1998

Estes quadros retratam a experiência do aborto por mulheres em diferentes situações e de distintas condições sociais, mas todas com sentimentos comuns: o sofrimento e a solidão. Apesar de ambas se encontrarem em situações subversivas, o elemento mais perturbador é o seu olhar. A forma como elas olham pela tela questionando-nos e desafiando-nos sobre a sua situação, chegando a provocar um desconforto psíquico.

Estas mulheres destemidas a terminar uma maternidade não desejada, desafiam a convenção social, o patriarcado e a religião, ainda presente na sociedade portuguesa no final do século XX, mesmo após a queda do regime salazarista em 1974 (uma ditadura que durante 48 anos fomentou uma mentalidade machista).


Aborto – um direito da mulher

Poder decidir sobre o seu corpo é também poder decidir sobre o seu futuro, negar este direito à mulher, é negar-lhe o poder de decisão sobre a sua própria vida, impedindo mais uma vez, a liberdade de escolha.

O que o aborto clandestino prova é que a mulher prefere liderar o seu destino de forma autónoma, mesmo que isso coloque em risco a sua saúde e a própria vida, do que seguir os pressupostos patriarcais e religiosos que foram criados com o intuito de colocar a mulher numa situação de submissão em relação ao homem.

Paula Rego dá às mulheres a oportunidade de se reverem nas suas pinturas, não só pela variedade de contextos, mas também pelas características físicas e psicológicas que lhes atribui.

Desafia os padrões de beleza da mulher na sociedade, mostra o seu sofrimento real e comum, mesmo que em situações fantasiosas e desconcertantes e mostra a sua determinação e coragem.

Penso que estas mulheres estranhas e sofredoras são partes nossas, todas nós, mulheres, temos pedaços destas mulheres incoporadas em nós, seja do passado, seja do presente, seja do inconsciente.


Mulheres como personagens principais

A minha interpretação pessoal relativamente às pinturas feministas de Paula Rego, é a de que as mulheres desempenham um papel ativo nos seus quadros, pelas ações que tomam e pela forma como elas olham diretamente para nós.

Se durante muitos séculos, as mulheres foram vistas como personagens secundárias, nos quadros de Paula Rego elas são as personagens principais das suas histórias, frequentemente sozinhas, elas enfrentam os seus medos e realidades hostis.

A Branca de Neve não é uma princesa que aguarda pacificamente por um princípe, mas sim uma mulher que sofre desesperada e inquietantemente sem ajuda; a Amélia é um anjo vingador que volta para enfrentar a situação de uma forma que nunca lhe teria sido permitida; os abortos são clandestinos, porque a mulher não teve, e continua a não ter em muitos países, direitos sobre o seu próprio corpo.

Com a obra de Paula Rego aprendi que devemos continuar a lutar pelos direitos das mulheres e a não termos receio de expressar as nossas emoções e desejos, mesmo que sejam considerados tabus, se tal ajudar a desconstruir falsos pressupostos e a construir um futuro mais justo e igualitário para todos.


Bibliografia

Paula Rego, Secrets & Stories (Paula Rego, Histórias e Segredos) – Documentário, (2017) realizado pelo filho de Paula Rego, Nick Willing.

Paula Rego – Histórias & Segregos

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1 Comments on “Paula Rego – Retratos de Mulheres com Histórias”

  1. Obrigada :)) quando tiver uma nova ideia digo te , não tenho tido muito tempo , mas até ao final de julho talvez te consiga enviar mais um artigo, depois digo .

    Boa continuação!

    Beijinhos, Alexandra Rodrigues

    Me gusta

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